A obra de Sade ao longo do tempo

A obra de Sade ao longo do tempo

Está em cena, no Teatro da Trindade, desde 30 de janeiro e até 10 de março, a peça «Boudoir 7 Diálogos Libertinos», inspirada no clássico da literatura erótica e pornográfica A Filosofia na Alcova, escrito pelo Marquês de Sade no final de setecentos. Trata-se, segundo Maria João Monteiro, de «Um manifesto pela liberdade e diversidade sexual vindo do século XVIII» (Público, 2-11-2018). A peça conta com a encenação e dramaturgia de Martim Pedroso, e tem como atores e atrizes Flávia Gusmão, João Gaspar, João Telmo, Maria João Abreu, Margarida Bakker, o próprio encenador, Pedro Monteiro e Sofia Soares Ribeiro. Do meu ponto de vista, que sou apenas um amante de teatro e tenho algum fascínio pelas obras de autores malditos, a peça é uma adaptação livre da referida obra, mas é relativamente fiel ao espírito e à letra da dita, está muito bem encenada e representada, e conta com magníficos cenários e música a lembrar elementos burlescos e de cabaret (bem condizentes com a filosofia e a temática do romance). E está a ser um sucesso também do ponto de vista da bilheteira, com sessões quase sempre esgotadas.  Mas pode tranquilizar-se o leitor do JL que não é meu objetivo com esta crónica nem usurpar terrenos alheios, infletindo pela crítica de teatro, nem sequer exercitar quaisquer capacidades de «tudólogo».  O meu objetivo é tão só refletir sobre a importância cultural e política da obra de Sade, e também sobre a oportunidade da sua adaptação dramatúrgica.

Na folha de sala, num pequeno texto intitulado «Contra Uns Parvos Imbecis», Martim Pedroso diz-nos claramente ao que vem e porque vem. Por um lado, assume a peça como um «um grito de liberdade» contra todas as grilhetas feitas de conceitos e ideias velhas (nomeadamente «o culto do patriarcado», «a reverência à heteronormatividade», que são assumidos com a norma dominante, o padrão a seguir segundo os bons costumes, e, portanto, consideram todos os outros como «famílias alternativas» ou «desviantes»). Por outro lado, coloca Sade como o primeiro e «o mais avant-gard» dos autores malditos nestas temáticas, desde logo porque escrevia no século XVIII, mas também pela extrema radicalidade da obra. Ou seja, situa o Marquês como uma figura cimeira de uma linhagem de grandes personalidades (Che Guevara, Martin Luther-King, George Bataille, Virgínia Wolf, Hannah Arendt, Harvey Milk, Pasolini, Camile Paglia, Madonna, David Bowie, etc.) que ao longo da história nos têm ajudado a soltar-nos de tais grilhetas e a derrubar os muros assentes em constrangimentos sociais, culturais, religiosos e políticos. Finalmente, o encenador assume que «o mundo (de hoje) não está bem» porque essas velhas ideias, essas bafientos grilhetas, estão de volta e em força, nomeadamente com o ascenso da direita radical (à direita) ou o feroz policiamento do politicamente correto (à esquerda), como se tivéssemos todos esquecido o longo passado de lutas para derrubar os referidos muros e quebrar as mencionadas amarras.

Foi bem escolhida a obra do Marquês, A Filosofia na Alcova, ou Os Perceptores Imorais, para esse grito de liberdade. Estruturada também em sete diálogos, a obra trata de iniciação sexual, moral e político-religiosa de uma jovem (aristocrata) de quinze anos, mas com corpo e aparência mais madura (cerca de dezassete anos), Eugénia, pela senhora (aristocrata) de Saint-Ange, de vinte e seis anos, e os seus amigos (o «Cavaleiro», seu irmão, e Dolmancé, um sodomita) e criados (nomeadamente Agostinho). A menina Eugénia vem passar dois dias a casa da senhora de Saint-Ange, contra a vontade da mãe, ultra-conservadora, mas com o beneplácito do pai, um libertino também, os senhores de Mistival. Ao longo do livro, que se passa no quarto/alcova/boudoir de Saint-Ange, Eugénia é instruída na teoria e na prática sexual, segundo a filosofia radicalmente hedonista do Marquês de Sade de que se devem seguir livremente todos os ímpetos sexuais (de que a natureza nos dotou), desde que nos deem prazer, e mesmo que contra todas as convenções, e usando até da violência.  O livro alterna entre cenas erótico-pornográficas (de todos os tipos de orientação sexual) de iniciação da menina, com todos os outros intervenientes, individual e coletivamente, com grandes dissertações filosóficas da doutrina radicalmente hedonista de Sade. Termina com a chegada da senhora de Mistival, que vem buscar a filha e é obrigada, contra sua vontade e por vezes até com violência, a entrar nas cenas de iniciação sexual com todos os outros intervenientes…

Sade é o protótipo do autor maldito, o revolucionário libertino nos idos de setecentos. De ascendência nobre, Donatien Alphonse François, Marquês de Sade, tal como aliás a esmagadora maioria dos celerados e libertinos dos seus livros, consubstancia o paradigma do autor maldito por dois motivos fundamentais. Primeiro, porque passou cerca de 27 dos seus 74 anos de vida (1740-1814) na prisão, e tal aconteceu quer sob o antigo regime (por exemplo, escreveu os 120 Dias de Sodoma ou a Escola da Libertinagem na Bastilha), quer sob a França revolucionária e liberal, tendo terminado os seus dias num hospício, Chareton, onde aliás dirigia e encenava peças de teatro, usando como elenco os doentes do manicómio, de grande sucesso externo. Quando chega a revolução, estava ele na Bastilha. É libertado. Chega a colaborar com o novo poder da França revolucionária, mas é acusado de ser demasiado brando com os opositores e voltará de novo à prisão e ao hospício, já sob a França revolucionária, e assim terminará os seus dias. Os motivos das suas prisões são sempre atentados ao pudor, libertinagem, alegada violência e violação sobre e de mulheres (por vezes mendigas de rua, caso Rose Keller; por vezes prostitutas, caso das quatro mulheres de Marselha), embora o defensor legal de Pauvert no Affaire Sade, o senhor Maurice Garçon, declare abertamente que todos esses casos foram muito empolados. Segundo, porque ao longo dos tempos e em várias geografias viu a esmagadora maioria das suas obras proibida.

Não se pense, porém, que a proibição das obras de Sade aconteceu apenas em regimes ditatoriais ou nos regimes liberais oligárquicos do século XIX. No final dos anos 1940, na França democrática, o editor Pauvert inicia a edição das obras completas do Marquês de Sade; em meados dos anos 1950 (1956-1958) a justiça francesa empreende um processo contra Pauvert com vista à proibição de pelo menos algumas das obras: ver Jean-Jacques Pauvert (1994), Noveaux (et Moins Noveaux) Visages de La Censure, suivi de L’Affaire Sade, Paris, Les Belles Lettres. O juízo final é de condenação do editor e de proibição das obras, embora a sentença seja depois, num tribunal de apelo, anulada, embora por vícios de forma.   O processo é ele mesmo uma peça de imenso interesse, nomeadamente porque a defesa mobilizou como testemunhas André Breton, Georges Bataille, Jean Cocteau e Jean Paulhan, os quais, embora por vezes reconheçam algum «potencial de perigosidade» na obra do Marquês… todos atestam a sua primordial importância nos domínios literário, das filosofias políticas, dos estudos da psicologia e da psiquiatria sobre as patologias sexuais (vide o sadismo), em movimentos artísticos como o surrealismo, etc. Deste processo, vale a pena citar uma parte das declarações de Jean Paulhan, numa alusão paralela ao episódio de Sodoma e Gomorra (por contraponto ao carácter hediondo das obras de Sade): «estive a ler a Bíblia ontem. É um livro hediondo (effrayant): todas aquelas pessoas da aldeia que se juntam em volta da casa onde Loth recebia os estrangeiros, para os “conhecer” (leia-se para os sodomizar), como diz a Bíblia (itálicos meus).»  Em Portugal, também tivemos o nosso Pauvert: Fernando Ribeiro de Mello, das edições Afrodite, que em plena ditadura, em 1966, edita A Filosofia na Alcova, a qual é depois apreendida e proibida pelo Tribunal Plenário. Todo este processo pode ser consultado na segunda edição do livro, que anexa a documentação relevante: Marquês de Sade (1974), A Filosofia na Alcova, Lisboa, edições Afrodite. Concluindo: tenhamos presente que não é apenas em ditadura, mas também em democracia, que obras maiores, embora malditas, da literatura e do pensamento ocidental podem ser proibidas em nomes dos bons costumes ou de outra coisa qualquer. Por isso, perante a perigosa inflexão autoritária a que assistimos atualmente no mundo, justificam-se tais gritos de alerta pela liberdade, a peça de Martim Pedroso, o filme Clímax de Gaspar Noé, ou ainda a exposição Quel Amour?, de Éric Corne, por exemplo.

Originalmente publicado no jornal de letras de 27-2-2019.

 

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Catedrático em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

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