A morte de Danton

A morte de Danton

  1. Introdução

«A morte de Danton» é uma peça do dramaturgo alemão Georg Büchner (1813-1837), publicada em 1835. Büchner nasceu numa família de médicos e cursou medicina, mas, além disso, envolveu-se num ativismo político muito influenciado pelas ideias da Revolução Francesa. Até à sua morte, escreverá ainda outras peças tais como «Leôncio e Lena» e «Woyzeck» (ver a sua biografia, por João Barrento, em AA.VV., A Morte de Danton – Manual de Leitura, TNSJ, Porto, 2019). «A morte de Danton» é, pois, uma peça de teatro escrita por alguém influenciado pelas ideias da Revolução Francesa, quase contemporâneo da dita, e que escreve sobre uma das figuras emblemáticas da transformação revolucionária ocorrida em França. A peça foi recentemente levada à cena, em Portugal, entre 19 de setembro de 2019 e 19 de janeiro de 2020, pelo Teatro Nacional de São João (TNSJ), no Porto, mas com périplo por várias cidades do país, nomeadamente Lisboa. A peça foi encenada por Nuno Cardoso, em articulação com o tradutor Francisco Luís Parreira, e a sua representação, bem como os materiais de apoio que o TNSJ proporcionou aos espetadores no «Manual de Leitura», são o mote para este nosso texto, no qual refletimos também sobre o jacobinismo radical, em particular, e as transformações revolucionárias, em geral.

  1. Danton no contexto da Revolução Francesa

A Revolução Francesa de 1789 é um momento crucial na mudança do Antigo Regime, com seu rol de iniquidades (uma sociedade dividida em ordens sociais, a Nobreza, o Clero e o Terceiro Estado, as primeiras privilegiadas, a outra não), passando pela tirania resultante da concentração do poder (maxime no absolutismo monárquico) e a arbitrariedade, para as formas modernas de governação representativa, liberal e democrática.  A Revolução Francesa é, pois, um momento genealógico fundamental na governação liberal e democrática moderna, importância essa bem evidente pela sua influência através do tempo, desde o século XVIII até hoje, e no espaço, com uma difusão universal (ver por exemplo Filomena Belo e Ana Oliveira, A Revolução Francesa, Quimera Editores, 2001). Nomeadamente, temos a ideia de soberania popular como fundamento do governo liberal e representativo, bem como os elementos que limitam a ação do poder e evitam a tirania e a arbitrariedade: os direitos do homem e do cidadão, a separação de poderes, o estado de direito. Os governos passam a ter de lidar com cidadãos com direitos e deveres e com um papel significativo na governação, em vez de lidarem com súbditos.

Todavia, por um lado, a Revolução Francesa foi sobretudo uma revolução burguesa e, por isso, a soberania popular excluía a maior parte do povo da cidadania legal (sufrágio censitário, exclusão das mulheres, eleições indiretas). Por outro lado, mesmo os avanços no desmantelamento da ordem social e política do antigo regime, nomeadamente a abolição dos direitos senhoriais, foram a principio muito tímidos… e só progrediram mais perante a forte pressão popular dos de baixo, dos excluídos da soberania legal, dos sans-culottes. Adicionalmente, o fim da sociedade de ordens e a instituição de uma governação baseada na soberania popular, por oposição ao poder hereditário e com origem divina, não se concretizou sem resistências, nem sem avanços e recuos. A monarquia, tal como uma boa parte da nobreza e do clero, fez tudo o que pôde para obstaculizar tais mudanças, nomeadamente pegando em armas para combater o novo status quo e aliando-se a potências estrangeiras para derrotar militarmente a França revolucionária. Também por isso o período temporal da revolução francesa é bastante complexo e marcado por avanços e recuos nos modelos de regime, nomeadamente com uma diferença substancial entre o período que vai 1789 a 1792, mais de acordo com o regime censitário e as mudanças tímidas em muitos aspetos do Antigo Regime, e o período que vai de agosto de 1792 (com a prisão do rei, a sua posterior condenação à morte e a instauração de um regime republicano) até Julho de 1794 (nomeadamente a partir do 9 de Termidor: prisão e execução de Robespierre e domínio do centro político, o marais, sobre a assembleia representativa, a Convenção), altura em que se regressa ao regime censitário e se caminha paulatinamente em direção ao consulado imperial de Napoleão.

Este é um período controverso da história da revolução francesa (ver por exemplo Sophie Wahnich, In Defence of Terror. Liberty or Death in the French Revolution,  Londres, Verso, 2012), liderado pela ala mais republicana e mais esquerdista da política francesa de então, próxima dos sans-culottes, onde pontificam figuras como Danton, Marat, Saint-Just e Robespierre.  É um período marcado por grandes avanços sociais (supressão incondicional e sem indeminização dos direitos feudais, ensino primário obrigatório, instituição de máximos de preços e de salários) e políticos (instituição da república, sufrágio universal masculino, concentração do poder numa assembleia representativa monocameral, com comissões delegadas nas funções executivas). Mas é também um período marcado pelo agudizar das guerras internas e externas dos partidários do Antigo Regime face à República e, por isso, é marcado por um clima de guerra, a instituição de um estado de exceção, suspensão das garantias constitucionais, instituição de tribunais revolucionários e execuções em massa de opositores do novo regime (e não só), em suma «o terror».  Como bem explica Sophie Wahnich, o nível de controvérsia em relação a este período, em termos da sua memória histórica, é de tal ordem que alguns pretendem separar 1792-94 de 1789, vendo o período jacobino como a raiz do totalitarismo («vermelho»), e oposto à democracia liberal burguesa.

  1. A morte de Danton, de Büchner, pelo TNSJ

A peça de Büchner versa precisamente sobre o período republicano radical da revolução francesa, nomeadamente sobre as tensões, dissensões e controvérsias no seio da ala jacobina, republicana  e esquerdista da revolução, designadamente  sobre as divergências entre Danton, coadjuvado pelo seu amigo Camille Desmoulins, face a Robespierre e a Saint-Just, desembocando depois no julgamento revolucionário de Danton e na sua morte pela guilhotina, um julgamento pilotado por Robespierre e Saint-Just. Embora Danton seja amiúde apresentado como encabeçando uma ala mais moderada do jacobinismo radical, é sabido que pilotou ele próprio também julgamentos sumários e massacres de opositores, tal como referido indiretamente na peça. Portanto, a peça foca mais sobre a velha questão sobre se a radicalização das revoluções, sobretudo em contextos de exceção (guerra civil, e guerra também na frente externa), tende para devorar os seus próprios filhos na torrente da crescente radicalização e fundamentalismo.

A peça estava magnificamente coreografada, com cenografia de F. Ribeiro: o pano de fundo era uma parede onde se veem duas hélices que não param de rodar do principio ao fim da peça, talvez referindo o curso inexorável da revolução. Mas, além disso, há uma fissura profunda, de alto a baixo, na dita parede, simbolizando as divisões no seio da elite revolucionária. Além de muito bem coreografada, a peça estava também muito bem encenada e representada, nomeadamente por Albano Jerónimo (Danton), João de Melo (Camile Desmoulins), Nuno Nunes (Robespierre), Rodrigo Santos (Saint Just) e Joana Carvalho (Lucille).

  1. A importância do «Manual de leitura» da peça

Uma peça desta complexidade, nomeadamente por causa das referências históricas para

que remete, não é facilmente compreendida pelos espetadores, mesmo os mais sofisticados e cultos. Daí a importância dos «Manuais de Leitura» que o TNSJ sempre produz para apoiar os espetadores a melhor seguirem e entenderem as suas peças. No caso vertente, são cerca de 100 páginas (grátis), e mais um cartaz com as melhores imagens do espetáculo, com entrevistas ao encenador e tradutor, textos de historiadores sobre o período, uma biografia do dramaturgo, uma extensa e detalhada cronologia, textos de escritores e artistas interpretando a peça, etc. É um verdadeiro serviço público do TNSJ na divulgação do teatro e na formação dos públicos. Um exemplo para que o magnifico diretor do Teatro Nacional Dona Maria II (TNDM II) (que de resto tem feito um excelente trabalho), Tiago Rodrigues, devia olhar muito seriamente já que as suas folhas de sala estão nos antípodas disto (as 4 ou 5 folhas usuais são de uma pobreza franciscana). O mesmo se poderia dizer da meritória tradução de peças em livro, pelo TNDM II com a editora Bicho do Mato, sem qualquer introdução enquadradora digna desse nome.

Originalmente publicado no Jornal de Letras, coluna «heterodoxias políticas», quinzena de 26 de fevereiro a 10 de março de 2020.

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Catedrático em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

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