A Herdade

A Herdade

Fomos ver ontem a Herdade! Magnifico filme, excelente realização de Tiago Guedes, galvanizantes interpretações de Albano Jerónimo (pater famílias), Sandra Faleiro (mater famílias, a mulher dominada, subalternizada, enfim libertada), Miguel Borges (o capataz, de uma fidelidade canina ao senhor, até mesmo para adotar um filho do senhor, bastardo com a mulher do capataz), entre muitas outras!… o filme foi exibido no festival de Veneza em 2019, onde foi galardoado, e está nomeado para o óscar do melhor filme estrangeiro em Hollywood também em 2019. É merecido!

O filme é uma história do Portugal contemporâneo, desde a ditadura Estado Novo (começa em 1946, após o fim da II Guerra e o lifting do Estado Novo) até à democracia atual e à financeirização do capitalismo atual (termina em meados / finais dos anos 1990), vista a partir da vida de uma herdade e dos seus proprietários, sobretudo o seu pater famílias. Porém, o latifundiário é heterodoxo, recusa apoiar explicitamente o regime, durante a guerra colonial, e só o fará mais tarde sob pressão, para libertar um dos seus operários especializados, um comunista preso pela PIDE. Talvez pela posição não alinhada do seu dono perante a ditadura (e mais tarde perante o novel regime democrático) a herdade e o seu proprietário parecem passar relativamente incólumes entre os diferentes regimes políticos, com poucos sobressaltos de índole política. O proprietário da Herdade, e a sua relação com os seus bens (a dita, a família, os empregados, etc.), são típicas de um verdadeiro ditador e de uma efetiva ditadura, a roçar a vertigem totalitária: a família é subjugada, a mulher reificada, o filho violentamente obrigado a não ter medo, a criada de casa alvo do «direito de pernada», o capataz tornado pai legal do bastardo do senhor com a criada, etc., etc. É extraordinária a metáfora do direito de propriedade como ditadura nas várias esferas da vida, sobretudo doméstica e profissional. Magnifica é também a simbologia do filme: começa, em 1946, com pai do pater famílias a obrigar o menino a tomar devida conta do suicídio do irmão por enforcamento (a violência da propriedade das coisas e das pessoas reproduz-se entre gerações!), e acaba em meados / finais dos anos 1990, com as dívidas da Herdade perante os bancos, com a revelação do segredo do bastardo perante todos, especialmente a filha, com a perda dos trabalhadores mais fiéis, com o pedido de divórcio por parte da mater famílias, com a morte do cavalo, talvez o mais amado de todos os seres da Herdade…  Belo e trágico desfecho, não poderia ser mais conclusivo, mais concludente, mais significante.

O filme é excelente! É magnifico mesmo! E, porém, falta-lhe algo para ter uma dimensão épica. Para ser comparável, no registo épico, a um filme por um lado próximo, mas, por outro lado e paradoxalmente, ao mesmo tempo muito distante, 1900 de Bernardo Bertolucci. Já li esta comparação algures.

O proprietário da Herdade é heterodoxo: não apoia o regime do Estado Novo, a não ser a contragosto e para salvar um opositor do regime, não é absentista como a maioria dos latifundiários a sul do Tejo, não paga mal aos seus assalariados (ou, pelo menos, paga melhor do que os outros), não parece sofrer com a reforma agrária, nada parecer sofrer com a coletivização forçada nas grandes herdades a sul do Tejo após a revolução de abril. A relação entre o latifundiário e os seus assalariados parece de uma harmonia orgânica, uma verdadeira colaboração orgânica entre capital e trabalho (tão do agrado da ideologia corporativista do Estado Novo). Ou seja, para ser um filme com uma dimensão verdadeiramente épica precisava, do meu ponto de vista, de ter mais política (ela existe, mas quase sempre como pano de fundo remoto, e mesmo assim nem sempre), faltava-lhe ser um exemplo mais paradigmático do latifúndio a sul do Tejo, faltava-lhe superar o estatuto de relato sobre um caso desviante… enfim, é a minha humilde opinião!

Estão todos de parabéns, em qualquer caso, os profissionais do filme, todos!

 

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Catedrático em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

No Comments

Post A Comment

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.