A direita não passará

A direita não passará

Embora tanto o Primeiro-Ministro como o Presidente da República tenham dado como encerrado o caso do processo de contratação de António Domingues para a CGD, considerando as declarações feitas pelo Ministro das Finanças na conferência de imprensa realizada para esclarecer aquele assunto, a direita, na continuação da estratégia que tinha planeado e vinha a desenvolver de há uns meses a esta parte, decidiu criar, potestativamente, uma nova comissão de inquérito às circunstâncias em que se verificou aquela contratação. A que entretanto tinha sido criado com o assentimento de todas as bancadas parlamentares não teria um mandato suficiente para satisfazer as suas ambições, no caso, manter no âmbito da Assembleia da República e nos meios de comunicação social a chama acesa do confronto com o governo.

O que neste caso a direita quer fazer crer é na unidimensualidade das condições que obrigaram à intervenção do governo na CGD, tomando como uno o inquérito à situação em que se encontrava o banco, a sua recapitalização e a contratação da administração liderada por António Domingues. Uma vez que grande parte da matéria a investigar tinha estado durante quatro anos sob a alçada de Maria Luís Albuquerque, sendo por isso difícil à direita encontrar argumentos substantivos para manter uma querela com o governo, logo que as circunstâncias se proporcionaram – uma gestão política menos ortodoxa dos termos de contratação de António Domingues -,  apesar do dossier ter ficado encerrado com a nomeação de uma nova administração e o valor atribuído à recapitalização, Passos Coelho e Assunção Cristas descortinaram nesse caso a oportunidade para abrirem uma frente de permanente questionamento do Ministro das Finanças.

Tendo como objectivo conhecer o conteúdo das mensagens trocadas entre Mário Centeno e António Domingues, com a criação da segunda comissão de inquérito a direita quer, para o efeito,  “Apreciar as negociações, direta ou indiretamente conduzidas pelo Governo, as condições e os termos de contratação da administração do dr. António Domingues para a CGD”; além disso, “apreciar os factos que conduziram à demissão do dr. António Domingues e à saída efectiva da administração por si liderada”https://www.noticiasaominuto.com/politica/ . Reduzidas á sua dimensão política, estas exigências representam as munições que  a direita deseja possuir para as arremessar contra o Governo. E até já tem a interpretação de Jorge Miranda sobre o artigo 34º da Constituição da República. Tudo visto estariam reunidas as condições para a direita procurar tirar a desforra da derrota das eleições de 4 de Outubro de 2015 e tentar fazer esquecer tudo quanto foi reconquistado nestes quinze meses de governação.

A intenção do PSD/CDS é clara e inequívoca: criar uma crise política cujo corolário seja a convocação de eleições antecipadas. É neste cenário que estes partidos estão a investir todos os seus recursos. Por alguma razão estão cegos e surdos a todos os sinais que lhes chegam do exterior. É que não ganhando este combate o lugar da direita vai ser um imenso deserto político, pelo menos até 2019. E esse é o seu grande desespero. Esse é o pesadelo que vêm arrastando desde que em 10 de Novembro de 2015 as esquerdas portuguesas se entenderam.

 

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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