A crise da esquerda estado-unidense: diagnóstico e soluções

A crise da esquerda estado-unidense: diagnóstico e soluções

O novo livro de Mark Lilla (De esquerda, agora e sempre. Para além das políticas identitárias, Lisboa, Tinta de China, 2018) ocupa-se da crise da esquerda norte-americana, ou seja, da crise de afirmação do Partido Democrata dos EUA, especialmente visível desde a eleição de Donald Trump e da derrota de Hillary Clinton, mas na verdade muito anterior e mais profunda do que isso. O livro propõe-se fazer um diagnóstico da situação, e apresentar soluções para a dita crise. Antes de prosseguirmos, impõe-se um esclarecimento e uma nota biográfica. Enquanto que na Europa Continental e na Escandinávia, bem como nas zonas sob sua influência político-cultural, a política tem sido estruturada e pode ser entendida em termos da divisão esquerda-direita, no universo anglo-saxónico (Grã-Bretanha, EUA, Canadá, etc.) a divisão liberal-conservador é mais comum para se tornarem inteligíveis (aos autóctones) os grandes conflitos políticos da era da política de massas. Há dois motivos fundamentais: por um lado, a menor complexidade e maior estabilidade do sistema tendencialmente bipartidário (face aos sistemas multipartidários da Europa Continental) não requer um tal instrumento de redução da complexidade do espetro ideológico e, portanto, a divisão ideológica coincide com a divisão partidária; por outro lado, porque «nunca houve socialismo na américa» e, portanto, o partido democrata está mais próximo do liberalismo de centro-esquerda do que propriamente do socialismo democrático. Assim, fez bem o editor em usar o título suprarreferido em vez do original, The once and future liberal. Beyond identity politics, embora ao longo do livro se mantenham as referências originais à «crise do liberalismo norte-americano», ao «liberalismo identitário», etc. Quanto ao perfil de Mark Lilla, diga-se que é Professor de Humanidades na Universidade de Columbia, Nova Iorque, e colunista em vários jornais americanos de projeção internacional, assumindo-se como «um liberal norte-americano frustrado». Nesta coluna apresentamos as grandes teses do autor, e finalizamos com uma crítica das mesmas.

A crise da esquerda estado-unidense é sintetizada de forma muito direta e sumária na introdução: apesar de terem tido já dois presidentes eleitos desde Ronad Reagan (Bill Clinton e Barak Obama), quando termina a era do «New Deal» (aquilo que o autor chama a «dispensação de Roosevelt/FDR» e que vai desde a presidência de FDR até às lutas dos movimentos civis e à «Grande Sociedade», com Lyndon Johnson, LBJ) e se inicia a «dispensação Reagan (RR)» (ou seja, a era neoliberal), a verdade é que «as vitórias eleitorais destes presidentes não contribuíram em nada para estancar ou sequer retardar o desvio para direita da opinião pública norte-americana» (p. 12). Mais, as propostas de Clinton e Obama foram muitas vezes limitadas, subvertidas ou até impedidas de se efetivarem por um congresso amiúde controlado pelos conservadores, ou por governos estaduais controlados pelos republicanos, ou ainda por «um Supremo Tribunal tendencialmente de direita».

A «dispensação de FDR» e do «New Deal», ou seja, do velho liberalismo norte-americano, assentava em alguns grandes princípios: justiça social e solidariedade, significativo papel do estado e do investimento público (estimular a economia, mesmo que com mais inflação, para aumentar o crescimento económico e reduzir o desemprego), e a afirmação de quatro grandes liberdades, «de expressão, de culto, de viver sem carências e de viver sem medo» (p.34). Mas a dita era chegou ao fim, nos anos 1970 e 1980, com os choques petrolíferos, a estagflação (inflação associada a fraco crescimento económico e a aumentos do desemprego), a Guerra do Vietname, o caso Watergate, e os efeitos perversos da «Grande Sociedade» de LBJ, e estavam criadas as condições para o florescimento da «dispensação de RR» e da era neoliberal.

A «dispensação de RR», ou era neoliberal, que Lilla classifica de «antipolítica», assentava num novo «catecismo político-ideológico», oposto ao anterior (pp. 32-33). Primeiro, a centralidade do individuo, independentemente das ligações a famílias, igrejas e comunidades. Segundo, a prioridade à criação de riqueza sobre a sua distribuição, como a melhor forma de promover a prosperidade económica. Terceiro, a liberalização e a desregulação dos mercados como forma de promover o crescimento económico. Quarto, a ênfase extremada no governo limitado, no «problema do governo» (não de um qualquer governo tirânico ou ineficiente, mas do governo em si mesmo), máxime no «Estado mínimo».   Apesar de há muito ter entrado também em crise com os crescentes e clamorosos insucessos do neoliberalismo, que a crise financeira internacional de 2008 e suas sequelas bem evidenciaram, o crescimento das desigualdades socioeconómicas, o empobrecimento e o desemprego crescente dos trabalhadores (manuais), no Ocidente, a verdade é que a «dispensação de RR» tinha uma forte base material (o sustentáculo material das ideias políticas) e uma forte adesão popular.

Mas a crise da esquerda estado-unidense está apenas em parte radicada no sucesso da «dispensação de RR»: segundo o autor, há uma boa quota de responsabilidade nessa crise dos próprios liberais norte-americanos, com aquilo a que Lilla chama o «liberalismo identitário», ou seja, uma «pseudopolítica», o complemento também ele individualista da esquerda norte-americana face ao núcleo duro individualista do neoliberalismo característico da era Reagan.  Por um lado, o autor reconhece a importância positiva da «política identitária» para estruturar a história política dos EUA: primeiro, na fundação do estado com a aceitação de múltiplas identidades (religiosas, étnicas, etc.) sob a unificação da cidadania americana; segundo, na pertinência das demandas das lutas dos movimentos civis dos anos 1960 e seguintes (pelos direitos dos negros, das mulheres, LGBT, etc.). Mas, por outro lado, considera que a ênfase excessiva e radical na «política identitária» (dos anos 1970 para cá) está no epicentro da crise da esquerda norte-americana, por vários motivos: primeiro, pela fragmentação que introduz no discurso e na ação política; segundo, porque propiciou a colagem dos democratas à ideia popular de que são o partido das classes médias, das elites urbanas e cosmopolitas, e que estão afastados das classes populares, dos de baixo, dos espaços rurais pobres (ao contrário da direita republicana); terceiro, pelos paradoxos que trouxe tais como termos os libertários dos anos 1960  transformados em polícias da linguagem politicamente correta, na atualidade; quarto, pela extrema individualização da política («tudo o que é pessoal é político»), tal como no caso dos neoliberais. E recomenda várias medidas para o combater estes problemas: dar de novo centralidade aos partidos face aos movimentos sociais; apostar sobretudo na luta política institucional, na educação cívico-política e num projeto político abrangente estruturado em torno da ideia de cidadania, e com uma visão de futuro.

O livro de Mark Lilla, em boa hora editado pela Tinta da China, é uma obra de grande interesse para o debate sobre a crise e as (necessárias) transformações das estratégias da(s) esquerda(s) para combater a hegemonia da(s) direita(s) no debate público, acima de tudo, mas também nas instituições, problemas estes que não são apenas estado-unidenses, são também europeus. O Livro está muito bem escrito, e as teses de Lilla são muito pertinentes, também na Europa. Todavia, estas teses, discutíveis como todas, enfermam de um problema fundamental: a abordagem monocausal. Ou seja, ao fazer do «liberalismo identitário» o alfa e o ómega da crise da esquerda norte americana deixa de lado a convergência dos «novos democratas» (que inspiraram depois a «terceira via» e o «novo centro», na Europa) com a nova «doxa neoliberal» durante a «dispensação Reagan», em matéria de políticas socioeconómicas (veja-se a este propósito Nancy Fraser, «Neoliberalismo progressista versus populismo reacionário», in O Grande Retrocesso, Lisboa, Objectiva, 2017, pp. 83-96). Ora essa convergência está por detrás, por um lado, da incapacidade do centro-esquerda de se diferenciar da direita em matérias socioeconómicas, e está também na origem da «Grande Recessão» (2008 e seguintes) e da incapacidade de falar para os de baixo, propondo-lhes a proteção que pedem e de que necessitam na era da globalização. E, por outro lado, a ênfase do centro-esquerda nas «políticas identitárias» tem por detrás a incapacidade do centro-esquerda se diferenciar da direita em matéria de políticas socioeconómicas. Menos política económica, mais política identitária!

Publicado originalmente no Jornal de Letras, quinzena de 11 de setembro de 2018

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Catedrático em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

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